Reforçar internacionalmente a Lusofonia – Entrevista com Silvestre Lacerda, Director-Geral da Direcção-Geral de Arquivos em Portugal
Daniel Oliveira
(English version below)
Na sequência do 16º Congresso Internacional de Arquivos em Kuala Lumpur, Malásia realizou-se um fórum entre países de língua Portuguesa. Este contou com a participação de representantes dos Arquivos Nacionais de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Timor-Leste e Macau. O repórter convidou Silvestre Lacerda, Director-Geral da Direcção-Geral de Arquivos (DGARQ) em Portugal, para trocar impressões sobre que estratégias na área dos arquivos têm sido tomadas com o intuito de reforçar a Lusofonia a nível internacional.
Quais são as principais conclusões deste encontro lusófono?
Em traços gerais, procurou-se partilhar informação quanto ao património arquivístico comum. Neste momento, existem vários projectos a serem desenvolvidos simultaneamente em diferentes países. Por conseguinte, é importante identificar o que está a ser feito, como e com que propósito. Acima de tudo, pretende-se com este tipo de iniciativas estreitar relações entre povos, promover a comunicação, a troca de experiências e conhecimento de modo a, consequentemente, consolidar e alargar a rede de arquivos entre países de língua Portuguesa.
Que projectos se encontram em fase de desenvolvimento?
Actualmente, estão em curso os seguintes projectos:
- Curso de formação promovido pela Cooperação Portuguesa (DARQ/IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento);
- Transferência de suporte:
- Digitalização de documentação sobre o Tarrafal pela DGARQ, cujo beneficiário directo é Cabo Verde;
- Digitalização da documentação da PIDE pela DGARQ, com interesse para Angola;
- Microfilmagem das fontes histórico-documentais brasileiras depositadas nos arquivos portugueses (Projecto Resgate – Rio Barão Rio Branco), cujo principal destinatário é o Brasil;
- Organização e microfilmagem da documentação existente nos arquivos brasileiros, com interesse para Portugal (Projecto Reencontro);
- Digitalização de documentação sobre movimentos de libertação em Moçambique (Projecto Aluka).
Que projectos pretendem desenvolver no futuro?
A grande prioridade reside na continuidade. Na minha opinião, é fundamental mantermo-nos empenhados na partilha de informação quanto ao património arquivístico comum e, se possível, reforçar essa posição. Todavia, é igualmente importante alargar esta estratégia a outros países, até então pouco ou nada representados. Desta forma, Macau, Timor-Leste e Moçambique são considerados parceiros estratégicos.
Um bom exemplo de dinâmica e consolidação da actual rede de países de língua Portuguesa é o projecto apresentado pelo Brasil. Pretende-se criar um curso de formação de quatro a seis semanas neste país. A temática central será conservação e organização de arquivos. Perspectiva-se que o projecto poderá começar a ser implementado em 2009. Cada país poderá contribuir com a participação de dois membros, tendo em conta que cada um deverá ser de uma área de especialização diferente.
E no que concerne aos países que não se encontram representados neste congresso?
Temos estado em contacto regular com São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Em São Tomé e Príncipe, uma equipe da DGARQ esteve recentemente envolvida na salvaguarda de documentação colonial das roças. Relativamente à Guiné-Bissau, a situação de instabilidade política tem dificultado o nosso trabalho. Porém, tem se procedido à troca de informação com as respectivas entidades na área dos arquivos cuja relação se prevê alargada no futuro. Por último, Cabo Verde pode ser considerado um participante assíduo no que concerne a cooperação lusófona.
Que projectos de vanguarda considera que estão actualmente a ser desenvolvidos pela DGARQ e que estarão em consonância com a promoção da Lusofonia a nível internacional?
O projecto RODA – Repositório de Objectos Digitais Autênticos é caracterizado pela inovação e espera-se que seja considerado um exemplo de boas práticas a nível internacional. Resumidamente, trata-se de um projecto de governo electrónico que pretende assegurar a transferência de objectos digitais de conservação permanente pela Administração Pública, garantindo, desta forma, a sua autenticidade, fiabilidade e acessibilidade. A fase de protótipo já se encontra encerrada pelo que no próximo ano se deverá iniciar a fase de exploração.
Com este projecto, espera-se que a nossa experiência seja enriquecedora para os países de língua Portuguesa e a troca de conhecimento possa ser potenciada em áreas de especialização tais como, por exemplo, a preservação digital.
Outro projecto extremamente interessante é a digitalização de dois milhões de documentos sobre a Inquisição de Lisboa. Neste momento, já se encontram disponíveis 50 000 documentos, contudo as nossas estimativas apontam para que até ao final do próximo ano a totalidade dos documentos possa estar acessíveil em qualquer parte do mundo através do sítio de Internet da DGARQ.
Strengthening Lusofonia at an international level – Interview with Silvestre Lacerda, Director-General of the Directorate-General of Archives in Portugal
Over the course of the 2008 ICA Congress in Kuala Lumpur, Malaysia a meeting took place between representatives of the National Archives of Portugal, Brazil, Angola, Mozambique, East Timor and Macao. This Flying reporter invited Silvestre Lacerda, Director-General of the Directorate-General of Archives (DGARQ) in Portugal, share his perspective about which strategies in the archives field should be utilized in order to strengthen Lusofonia at an international level.
What were the major conclusions from the meeting?
Generally speaking, the topic of exchange of information among countries was highlighted with regards to the common archival heritage. At the moment, there are several projects under development in different countries that are running at the same time. Therefore, it is important to identify what is being done, how, and for what purpose. Most of all, with this type of initiative, we want to stress the importance of bringing countries together, promoting communication, exchanging experiences and knowledge so that, as a consequence, the network among Portuguese speaking countries can be strengthened and extended.
Which projects are under development?
Currently, we are involved in the following projects:
- Training course promoted by the Portuguese Cooperation (DARQ/IPAD – Portuguese Institute to Support Development);
- A number of digitization projects:
- Digitisation of documents about Tarrafal (a political prison created by Salazar during his dictatorship of Portugal) by DGARQ, which are of special interest to Cape Verde;
- Digitisation of documents regarding PIDE (State Police during the Dictatorship period in Portugal) also by DGARQ, of particular interest to Angola;
- Microfilm of the documentation about Brazil stored in Portuguese archives (Resgate project– Rio Barão Rio Branco);
- Arrangement and microfilm of the documents stored in Brazilian archives (Reencontro project), with particular interest to Portugal;
- Digitisation of the documentation with regards to movements of freedom in Mozambique (Aluka project).
Which projects do you intend to develop in the future?
Our main priority is to focus on continuity. In my opinion, it is extremely important to keep the exchange of information among countries with regards to the common archival heritage and to strengthen this pattern. However, it is also relevant to extend our strategy to under-represented Portuguese speaking countries. Hence, Macao, East-Timor and Mozambique have become strategic stakeholders.
A good example of a dynamic interaction and reinforcement of the current network of Portuguese speaking countries is a project presented by Brazil. It is aimed at creating training sessions between four and six weeks, to be held in this country. The core issue will be conservation and archival arrangement. It is expected to start next year. Each country must nominate two members who are each specialised in different technical areas.
What about the Portuguese speaking countries whose representatives couldn’t attend the ICA Congress 2008?
We have been often in touch with São Tomé and Princípe, Guinea-Bissau and Cape Verde. In São Tomé and Príncipe, DGARQ was involved in a project for safeguarding endangered documentation about plantations (“roças”). In Guinea-Bissau, the political situation has constrained our work. Nevertheless, we have been keeping contacts with the archive and we hope to extend it in the future. Finally, Cape Verde has a long tradition of cooperating with other Portuguese speaking countries.
Which innovative projects do you think are being developed by DGARQ that follow the strategy of promoting Lusofonia at an international level?
The RODA project – Repository of authentic digital objects—is definitely a project characterized by innovation and it is expected to be considered one of the examples of best-practices in e-government. It aims at leveraging knowledge and competencies in digital preservation. In short, it will be a repository for ingesting, managing and disseminating digital objects with recognised social value created by public sector organizations. The prototype phase is already finished and we hope to start its implementation next year.
We hope to use our experience among Portuguese speaking countries in order to exchange knowledge on issues such as digital preservation. Furthermore, I would like to highlight a digitization project where we aim to digitize two million documents about the Inquisition of Lisbon. Currently, there are about 50,000 available documents on the DGARQ website. We plan to keep feeding the system and reach our goal amount by the end of 2009. All documents will be accessible worldwide.


